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Queijo de ovelha em Pelotas (RS): a história da La Beca e da memória que sobreviveu pelo cheiro


Há lembranças que desaparecem aos poucos.

Primeiro esquecemos as palavras exatas. Depois os detalhes. Com o tempo, já não sabemos como determinada receita era preparada, quanto tempo ficava no fogo ou qual ingrediente fazia toda a diferença. Mas algumas memórias insistem em permanecer vivas de outro jeito.

Às vezes, elas sobrevivem pelo cheiro.

Foi isso que aconteceu com Camila Pizoni.


Quando fala sobre queijo, ela não recorda exatamente das receitas das nonas. Elas já haviam partido quando decidiu transformar a produção de leite de ovelha em profissão. O que ficou foram histórias contadas pela família e uma lembrança muito específica: o aroma dos queijos descansando no porão das casas, onde o tempo parecia caminhar mais devagar e os alimentos amadureciam no mesmo ritmo da vida.


É curioso perceber que, justamente quando quase toda essa tradição parecia perdida, ela encontrou um caminho inesperado para se aproximar dela outra vez.


Não repetindo as receitas das avós.

Mas criando as suas próprias.


Camila nunca imaginou que faria queijo por herança familiar. Sua formação é em Medicina Veterinária e, durante anos, sua relação com os animais esteve ligada ao cuidado, à sanidade e ao bem-estar dos rebanhos.


Foi conhecendo um empreendimento que trabalhava com ovelhas leiteiras que uma ideia começou a tomar forma. Talvez aquele modelo pudesse existir também na região de Pelotas, no sul do Rio Grande do Sul.


A ideia permaneceu guardada durante algum tempo, como acontece com tantos projetos que parecem grandes demais para o momento em que surgem.


Até que veio a pandemia.


Enquanto o mundo inteiro desacelerava, Camila decidiu fazer exatamente o contrário. Tirou o sonho da gaveta, começou a estudar, buscou formação em fabricação de queijos e passou meses aprendendo, errando e testando receitas. Primeiro com leite de vaca. Depois, quando o rebanho começou a produzir, finalmente chegou o momento de trabalhar com aquilo que sempre imaginara.


O leite de ovelha.


Ela guarda com carinho uma cena que talvez passe despercebida para quem observa de fora.


Em fevereiro de 2023, depois da primeira ordenha realizada na propriedade, havia apenas um litro de leite disponível. Não era suficiente para produzir uma peça bonita. Nem uma peça grande. O resultado foi um queijo pequeno, quase tímido, daqueles que cabem na palma da mão.


Para qualquer outra pessoa, poderia parecer pouco.

Para Camila, era o começo de tudo.


Ainda hoje ela lembra daquele pequeno queijo como quem recorda o primeiro passo de uma longa caminhada. Não pelo tamanho, mas pelo significado. Depois de anos de planejamento, leituras e testes, finalmente existia um queijo que carregava o leite produzido pelas próprias ovelhas da La Beca.


Nem toda conquista faz barulho.

Algumas cabem dentro de um litro de leite.


A propriedade está localizada na zona rural de Pelotas, uma região marcada por antigas colônias agrícolas que preservam uma riqueza cultural ainda pouco conhecida fora do sul do Rio Grande do Sul. As estações do ano são bem definidas, os invernos são frios, os verões quentes e a umidade acompanha praticamente todo o calendário. Em meio à paisagem predominantemente plana, pequenas coxilhas quebram o horizonte e favorecem tanto o cultivo das pastagens quanto a saúde do rebanho.


Camila ainda evita afirmar exatamente como esse ambiente influencia o sabor de seus queijos. Para ela, essa é uma resposta que o tempo ainda está construindo. Mas existe uma certeza que antecede qualquer maturação: nenhum queijo nasce melhor do que o leite que lhe deu origem.


Talvez seja por isso que seu olhar de veterinária nunca tenha deixado a propriedade.

Antes de pensar na queijaria, ela pensa nas ovelhas.


Na sanidade do rebanho.

Na qualidade da ordenha.

No bem-estar animal.


Sua formação lhe ensinou que muitos problemas podem ser evitados muito antes de aparecerem dentro da cuba de fabricação. Produzir queijo, nesse caso, começa muito antes da fabricação. Começa no cuidado diário com cada animal, na observação silenciosa do rebanho e na certeza de que qualidade não se corrige no fim do processo; ela é construída desde o início.


Os queijos da La Beca traduzem essa mesma delicadeza. Hoje a produção reúne três receitas elaboradas exclusivamente com leite de ovelha pasteurizado: o Quindim, queijo de curta maturação que representa a identidade da casa; o Camafeu, enriquecido com nozes e maturado entre quinze e vinte dias; e um Boursin cremoso que costuma surpreender quem o experimenta pela primeira vez.


Curiosamente, a surpresa quase nunca vem da receita.

Vem do preconceito.


Muita gente imagina que um queijo de leite de ovelha terá um sabor intenso, forte ou lembrará o animal. Em vez disso, encontra queijos suaves, elegantes e extremamente cremosos. Camila conta que é comum ouvir um espontâneo "bah..." logo na primeira mordida, especialmente diante do Boursin, ainda pouco conhecido por boa parte dos consumidores brasileiros.


Esse instante sempre a faz sorrir.

Porque mostra que experimentar continua sendo a melhor maneira de vencer qualquer expectativa.


Ela acredita que um queijo nunca leva apenas leite, fermentos e técnica. Leva também a história de quem o produz. Talvez seja justamente isso que torne seus produtos únicos. Não apenas o modo como são feitos, mas o caminho percorrido até que existissem. Os estudos, as tentativas, os erros, as receitas descartadas e a paciência para compreender que fazer queijo também significa aceitar que a ciência raramente entrega respostas imediatas.


Entre todos os desafios, existe um que ainda acompanha quem decide produzir derivados de leite de ovelha no Brasil: a ausência de uma legislação construída para essa realidade. Muitas vezes, o produtor precisa abrir caminho onde praticamente não existe estrada. É um trabalho que exige conhecimento técnico, persistência e disposição para enfrentar dificuldades que pouco têm relação com a fabricação do queijo, mas que fazem parte da rotina de quem escolhe inovar.


Mesmo assim, Camila continua olhando para frente.


Seu desejo é ampliar a produção, desenvolver novos queijos de maturação mais longa e levar a La Beca para mercados além do Rio Grande do Sul. Não por uma questão de tamanho, mas porque acredita que cada novo consumidor também ajuda a mostrar que o leite de ovelha brasileiro pode ocupar um lugar de destaque quando é produzido com responsabilidade, técnica e respeito aos animais.


Talvez ela nunca consiga recuperar exatamente as receitas que suas nonas faziam. O tempo levou consigo detalhes que ninguém escreveu e gestos que ninguém registrou. Mas a lembrança que permaneceu — aquele cheiro de queijo amadurecendo no porão das casas — encontrou uma nova forma de existir.


Hoje ele já não vive apenas na memória.


Vive em uma pequena queijaria, entre ovelhas, pastagens e mãos que decidiram escrever uma história nova sem esquecer de onde veio a inspiração.

Porque algumas tradições não sobrevivem sendo repetidas.


Elas sobrevivem quando alguém encontra coragem para recomeçá-las.


Conheça histórias que amadurecem junto com seus queijos

Por trás de cada queijo artesanal existe muito mais do que uma receita. Existem famílias, territórios, escolhas e histórias que raramente cabem em um rótulo.


A Confraria aoqueijo nasceu para aproximar você dessas pessoas. A cada edição, novos produtores, novos sabores e novas histórias chegam à sua mesa, mostrando que entender um queijo é também conhecer quem dedica a vida a produzi-lo.


Porque alguns queijos alimentam.

Outros também permanecem na memória.

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