Queijos da Oma: às vezes a mudança acontece antes da decisão
- Tiago Pascoal

- 14 de jul.
- 3 min de leitura
Tem gente que consegue dizer exatamente quando mudou de vida.

Marwin não.
Se perguntar quando a queijaria começou, ele responde que foi em 2021, quando a mãe, Sali, resolveu fazer queijo colonial por hobby e o pai enxergou ali uma forma de agregar valor ao leite da propriedade.
Mas essa não é toda a história.
Porque a mudança verdadeira aconteceu devagar, quase sem ninguém perceber.
Primeiro vieram algumas peças de queijo feitas em casa. Depois apareceu um mestre queijeiro suíço chamado Josef, que dizia ter encontrado a propriedade "seguindo o cheiro do soro". Vieram as primeiras orientações, os primeiros ajustes e as primeiras vendas.
Enquanto isso, a vida seguia outro caminho.
Marwin atendia como médico-veterinário na Colônia Witmarsum. Larissa dividia o tempo entre o controle de qualidade de um laticínio e o banho e tosa que os dois mantinham juntos.
Nada indicava que, pouco tempo depois, eles deixariam tudo aquilo para viver de queijo. Até que a primeira filha nasceu.
Isa tinha apenas cinco meses quando Marwin começou a ajudar a mãe na produção. Enquanto os queijos eram feitos, ela dormia no carrinho ao lado da mesa. Não existia planejamento. Existia apenas a necessidade de conciliar uma filha pequena com uma rotina que começava a ocupar cada vez mais espaço dentro da família.
Depois veio o segundo filho.
Larissa, grávida de oito meses, continuava entrando na queijaria todos os dias. O barrigão nunca virou desculpa para ficar distante. Pelo contrário. Hoje, quando lembram daquele período, eles riem mais do que reclamam.
Talvez porque algumas das melhores decisões da vida só façam sentido quando olhamos para trás.
Quando finalmente venderam o banho e tosa, passaram os pacientes para outra colega e decidiram assumir a queijaria de vez, a sensação não foi exatamente a de começar algo novo.
Foi a de aceitar uma realidade que já vinha acontecendo havia muito tempo.
Como se o queijo tivesse escolhido a família antes mesmo que a família escolhesse o queijo.
A propriedade fica na Colônia Witmarsum, nos Campos Gerais do Paraná, uma comunidade marcada pela imigração menonita, pelo trabalho no campo e pela forte tradição leiteira. Os campos naturais se misturam às araucárias, o clima muda bastante ao longo do ano e as vacas passam a maior parte da vida sobre o pasto.
Quem visita costuma reparar primeiro na paisagem.
Marwin costuma reparar em outra coisa.
Ele observa o pasto.
Porque sabe que é dali que a história realmente começa.
A alimentação muda conforme a estação. O leite muda junto. E o queijo responde a tudo isso.
Muita gente enxerga apenas uma peça pronta sobre a tábua. Eles enxergam meses de manejo, de ordenha, de fermentação e de espera.
Como o próprio Marwin costuma dizer, da bezerra até o queijo pronto acontece muita coisa.
Talvez a maior parte do trabalho seja justamente aquilo que ninguém vê.
O leite chega direto da ordenha.
Sem tratamento térmico.
Isso exige um cuidado que começa muito antes da fabricação. O pai acompanha pessoalmente a ordenha nos dias de produção, garantindo que cada detalhe aconteça como precisa acontecer.
Depois o leite passa para outra etapa igualmente delicada.
A fermentação. E, finalmente, para aquela que ainda desafia a família todos os dias.
A maturação.
Marwin diz que o queijo é um produto vivo.
Não como uma frase bonita.
Como alguém que passa dias observando pequenas mudanças de aroma, textura e casca tentando entender o que aquele lote está dizendo.
Cada peça ensina alguma coisa.
E talvez seja exatamente isso que mais o fascina.
A sensação de que ainda existe muito para aprender.
Os queijos da Oma nasceram dessa mistura entre tradição, estudo e curiosidade.
Existe o Colonial. Existe o Dona Ida, de casca lavada. O Opa Dyck. O IPA Käse. O Morbier Café.
Receitas diferentes, mas todas guiadas pela mesma ideia: deixar que o leite cru e o tempo contem a maior parte da história.
Quando perguntam por que alguém deveria comprar seus queijos, Marwin raramente começa falando de sabor. Ele prefere convidar as pessoas para provar.
Acredita que um bom queijo faz uma coisa que nenhuma explicação consegue fazer.
Desperta lembranças.
Às vezes, basta uma mordida para alguém voltar à cozinha da avó, ao café da infância ou a uma mesa que já nem existe mais.
E, quando isso acontece, a venda deixa de ser convencimento.
Vira consequência.
Hoje o sonho da família vai além de produzir bons queijos.
Eles querem que as pessoas conheçam tudo aquilo que existe antes da primeira fatia.
O leite. Os animais. As mãos que trabalham. As escolhas.
Porque o queijo nunca foi apenas um produto.
É uma história inteira transformada em alimento. Alguns queijos impressionam pelo sabor.
Outros permanecem porque carregam pessoas, memórias e lugares que continuam vivos dentro deles.
Na Confraria aoqueijo, você conhece produtores que fazem do queijo muito mais do que um alimento. Fazem dele uma forma de contar a própria história.



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