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Rouwstik - Queijo artesanal de ovelha em Santa Catarina: a pequena queijaria que decidiu continuar produzindo leite cru quando seria mais fácil fazer igual todo mundo

Existe um momento em que o produtor artesanal percebe que não está mais apenas fazendo queijo. Está defendendo uma forma inteira de existir.


Porque produzir artesanalmente no Brasil, principalmente trabalhando com leite cru, maturação longa e mofos naturais, quase nunca significa escolher o caminho mais simples. Significa aceitar um processo mais lento, mais delicado, mais difícil de controlar e, muitas vezes, mais difícil ainda de explicar para quem aprendeu a enxergar alimento apenas como produto padronizado.


A história da produção de Rosangela Erahardt Rouwstik nasce exatamente dentro dessa tensão. Não de uma tradição familiar antiga. Não de uma grande estrutura.

Mas de uma inquietação que começou quando uma professora pesquisadora dos queijos artesanais brasileiros enxergou potencial no que ainda era apenas tentativa, curiosidade e vontade de aprender.


E talvez seja exatamente isso que torne essa história tão humana. Porque alguns produtores começam com herança. Outros começam apenas com coragem suficiente para continuar aprendendo mesmo sem garantia de que dará certo.


Desde 2017, em Petrolândia, Santa Catarina, Rosangela desenvolve uma produção artesanal baseada em leite cru de ovelha e vacas Jersey criadas a pasto, dentro de uma região marcada por extremos climáticos que mudam completamente o comportamento do queijo ao longo do ano.


O inverno é rigoroso. O verão também. E o queijo responde ao ambiente o tempo inteiro. A umidade muda. O mofo reage diferente. A velocidade da maturação se transforma. A textura da massa oscila silenciosamente dentro da câmara. E é justamente nesse tipo de cenário que o produtor artesanal deixa de executar receita e passa a interpretar matéria viva.


Porque queijo artesanal nunca é repetição perfeita. É leitura constante do ambiente.

Para Rosangela, o leite cru não representa romantização. Representa profundidade.

Quando o leite é excessivamente corrigido, estabilizado e padronizado, parte importante da identidade desaparece junto. Aroma, textura, comportamento e complexidade deixam de carregar território para carregar apenas previsibilidade industrial.


E previsibilidade raramente produz memória. Talvez por isso seus queijos carreguem uma sensação tão viva de presença. O leite das ovelhas e das vacas Jersey criadas a pasto desenvolve intensidade, gordura, comportamento microbiológico e notas aromáticas que lembram antigos queijos de campo, trazendo profundidade amadeirada e uma sensação gustativa que permanece por muito tempo depois da degustação.


Mas talvez o ponto mais delicado da produção esteja na maturação.

Especialmente no Perimbó de ovelha, maturado com Penicillium roqueforti.

Controlar umidade e temperatura dentro de uma pequena produção artesanal não é apenas detalhe técnico. É o que define se o queijo vai amadurecer lentamente até desenvolver complexidade… ou colapsar antes disso acontecer.


O mofo azul não aceita distração. Ele responde ao clima, ao ambiente, ao tempo e à condução da cave. Quando tudo funciona, surgem os pontos azulados naturais, o aroma delicadamente terroso e uma profundidade sensorial difícil de reproduzir.

Quando não funciona, semanas inteiras de trabalho desaparecem sem aviso.

E talvez seja exatamente aí que o artesanal mais revele sua fragilidade e sua beleza ao mesmo tempo.


Mas o desafio não termina dentro da maturação. Produzir queijo artesanal no Brasil ainda significa enfrentar estruturas construídas para grandes indústrias, não para pequenas produções autorais. Fiscalizações desproporcionais, denúncias e insegurança regulatória fazem parte da rotina de muitos produtores que trabalham fora da lógica industrial.


E isso desgasta. Porque, muitas vezes, o produtor precisa gastar tanta energia tentando continuar existindo quanto tentando evoluir tecnicamente.

Mesmo assim, Rosangela continuou.


E uma das primeiras respostas veio de forma silenciosa, mas simbólica. Uma peça produzida com goiabada conquistou medalha em concurso. Não foi apenas uma premiação. Foi validação.


A percepção de que aquilo que parecia pequeno demais para muita gente carregava identidade suficiente para ocupar espaço entre grandes produções do país.

Hoje, existe um desejo que vai além da venda. Ensinar. Compartilhar conhecimento.


Mostrar que diversidade, leite cru, mofos naturais e produção artesanal podem coexistir com responsabilidade técnica, profundidade sensorial e identidade verdadeira.


Porque talvez o queijo artesanal brasileiro não precise apenas ser consumido.

Talvez ele precise urgentemente ser compreendido. E talvez seja exatamente isso que os queijos de Rosangela carreguem. Não apenas sabor. Mas a insistência silenciosa de alguém que decidiu continuar produzindo do jeito em que acredita, mesmo quando o caminho mais fácil sempre foi fazer diferente.

Histórias de queijarias como essa são o que nos move na Confraria Aoqueijo.

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