top of page

Fazenda Coruja: queijos artesanais no Cariri paraibano

há 22 horas
5 min de leitura

Em Barra de São Miguel, na Paraíba, uma família encontrou na produção de queijos de cabra um caminho para valorizar sua terra, preservar conhecimentos e construir novas oportunidades.

Cabras murcianas no cariri paraibano
Cabras Murcianas no cariri paraibano

Um Cariri que precisa ser conhecido de perto

Existe um Brasil que muitas vezes conhecemos apenas pelas histórias contadas por outras pessoas.


O Cariri paraibano é um desses lugares.


Durante décadas, a região foi retratada principalmente por suas dificuldades climáticas, pela escassez de água e pelos desafios enfrentados por quem vive no semiárido. Mas essa é apenas uma parte da história.


Quem percorre o Cariri encontra também uma população que aprendeu a observar a natureza, adaptar suas atividades e transformar conhecimento em oportunidades.


Foi com esse olhar que visitei a Fazenda Coruja, em Barra de São Miguel, na Paraíba, onde conheci de perto o trabalho de uma família que está ajudando a construir uma nova identidade para os queijos artesanais brasileiros.


Fazenda Coruja: um projeto familiar que começou pelos queijos de cabra

A produção de queijos da Fazenda Coruja teve início em 2018, quando Pedro Pedrosa e Bruna Sagretzki decidiram investir na caprinocultura leiteira como alternativa econômica para a propriedade.


A escolha não foi por acaso.


As cabras possuem características que favorecem sua criação em regiões semiáridas, desde que recebam manejo, alimentação e condições sanitárias adequadas.


A família decidiu trabalhar especialmente com a raça Murciano-Granadina, originária da Espanha, conhecida por sua aptidão leiteira e adaptação a regiões de clima seco.


Mas criar animais é apenas uma parte do trabalho. Transformar seu leite em queijos de qualidade exige domínio de processos, controle de fabricação, maturação e, principalmente, persistência.


Foi assim que nasceu o Queijo da Coruja.


Durante minha visita, conheci Bruna e Pedro, Givaldo, pai de Pedro, e Ivan, o queijeiro. Pessoas que, em diferentes atividades, ajudam a construir um projeto onde o conhecimento técnico convive com a experiência familiar.


Mais do que uma queijaria: uma propriedade que aprende com o território

Uma das características que mais me chamou a atenção na Fazenda Coruja foi a visão integrada da propriedade.


Ali, os queijos não são uma atividade isolada.

Palma forrageira
Palma forrageira

O trabalho envolve também sementes, genética animal e frutas, numa combinação de conhecimentos e atividades que procura aproveitar as possibilidades da terra.


Em um território como o Cariri, compreender as condições locais é fundamental para tomar decisões produtivas.


Não basta importar modelos de outras regiões e esperar os mesmos resultados. É preciso observar, experimentar, corrigir e, muitas vezes, começar novamente.


Prosperar no semiárido não significa vencer a natureza. Significa aprender a trabalhar com ela.


Essa talvez seja uma das maiores lições que uma propriedade como a Fazenda Coruja pode oferecer.


Os queijos da Fazenda Coruja e a identidade do Cariri

A queijaria produz diferentes variedades de queijos artesanais de leite de cabra, demonstrando como uma mesma matéria-prima pode oferecer experiências sensoriais bastante distintas.

Entre os produtos estão:

  • Lua Nova: queijo de cabra maturado, de massa prensada, que demonstra o potencial desse leite para elaborar queijos com maior tempo de maturação.

  • Coroa de Frade: um dos queijos premiados da propriedade, cujo nome homenageia elementos característicos da paisagem regional.

  • Creme Chèvre: Queijo de cabra fresco com textura cremosa.

  • Boursin: : Queijo de cabra tipo Boursin, macio e temperado.


O Lua Nova e o Coroa de Frade já receberam medalhas de ouro nem concursos nacionais, reconhecimento que ajudou a ampliar a visibilidade da produção paraibana.


Mais do que premiações, esses resultados demonstram a importância de investir em conhecimento técnico e desenvolver produtos com identidade própria.


Afinal, a qualidade de um queijo não depende apenas de sua receita. Ela é construída desde a criação dos animais e a qualidade do leite até as decisões tomadas durante a fabricação, conservação e maturação. A primeira queijaria da Paraíba a conquistar o Selo Arte Em 2024, a Queijaria Coruja alcançou um marco importante: tornou-se a primeira queijaria da Paraíba a conquistar o Selo Arte.


A certificação reconhece produtos de origem animal elaborados artesanalmente, mediante o cumprimento de critérios de produção e inspeção, e permite sua comercialização em todo o território nacional.


Para uma pequena queijaria localizada no interior do Cariri, isso representou a possibilidade de alcançar consumidores de outras regiões do Brasil.


A conquista foi resultado de um processo de aprimoramento técnico, gestão e adequação da produção, com apoio de instituições como o Senar e o Sebrae.


É um exemplo de como o conhecimento, a assistência técnica e políticas públicas adequadas podem ampliar as oportunidades de pequenos produtores.


O valor de conhecer quem está por trás do queijo

Durante a visita, uma das minhas maiores satisfações foi ouvir as histórias da família.


Conhecer suas decisões, entender os desafios enfrentados e perceber como cada integrante contribui para o desenvolvimento da propriedade.


Há algo que nenhuma embalagem consegue transmitir completamente: a história das pessoas que dedicam seus dias à produção de um alimento.


O conhecimento de Givaldo, a visão de Bruna e Pedro e o trabalho de Ivan na queijaria fazem parte de uma construção coletiva.

Bruna e Pedro - Fazenda Coruja
Bruna e Pedro - Fazenda Coruja

Um projeto que começou pequeno, avançou gradualmente e vem encontrando novos caminhos.


O valor de um queijo não está apenas em suas características sensoriais. Está também no conhecimento, no território e nas pessoas que tornam sua existência possível.


Isso não substitui a qualidade do produto. Pelo contrário: ajuda a compreender quantas decisões são necessárias para alcançá-la.


Por que precisamos conhecer mais os queijos artesanais da Paraíba? O Brasil possui uma diversidade queijeira muito maior do que aquela que costuma chegar às prateleiras dos grandes centros urbanos.


A Paraíba, especialmente a região do Cariri, vem conquistando espaço por meio de produtores que investem na qualidade do leite, na transformação artesanal e na valorização de suas particularidades.


Os queijos de cabra são parte importante dessa história.


Conhecer esses produtores permite ampliar nosso repertório sensorial, questionar preconceitos associados ao leite caprino e compreender diferentes expressões da produção artesanal brasileira.


Visitar a Fazenda Coruja reforçou minha convicção de que precisamos conhecer o Brasil diretamente, ouvindo quem vive e trabalha em cada território.


A vida no Cariri tem suas particularidades. E existe uma beleza extraordinária nessa diferença.


Saí da propriedade com histórias, aprendizados e uma admiração ainda maior pela inteligência e pela capacidade de adaptação do sertanejo.


Meu agradecimento a Bruna, Pedro, Givaldo e Ivan pela receptividade, pela prosa e pelos ensinamentos. Da Fazenda Coruja para a Confraria Aoqueijo

Na Aoqueijo, acreditamos que apresentar um queijo artesanal também é uma oportunidade de aproximar consumidores das pessoas e dos territórios onde ele nasce.


Por isso, incluir os queijos da Fazenda Coruja em uma edição da nossa Confraria tem um significado especial.


É permitir que uma pequena produção familiar do Cariri paraibano seja conhecida por consumidores de outras regiões.


E, principalmente, é mostrar que o Brasil possui histórias extraordinárias que merecem ser descobertas.


Porque levar um queijo para outra mesa é também uma maneira de fazer a história de quem o produz chegar mais longe.


Conheça a Confraria Aoqueijo e descubra novos produtores e queijos artesanais brasileiros.

Comentários


bottom of page