Fazenda Coruja: queijos artesanais no Cariri paraibano
Em Barra de São Miguel, na Paraíba, uma família encontrou na produção de queijos de cabra um caminho para valorizar sua terra, preservar conhecimentos e construir novas oportunidades.

Um Cariri que precisa ser conhecido de perto
Existe um Brasil que muitas vezes conhecemos apenas pelas histórias contadas por outras pessoas.
O Cariri paraibano é um desses lugares.
Durante décadas, a região foi retratada principalmente por suas dificuldades climáticas, pela escassez de água e pelos desafios enfrentados por quem vive no semiárido. Mas essa é apenas uma parte da história.
Quem percorre o Cariri encontra também uma população que aprendeu a observar a natureza, adaptar suas atividades e transformar conhecimento em oportunidades.
Foi com esse olhar que visitei a Fazenda Coruja, em Barra de São Miguel, na Paraíba, onde conheci de perto o trabalho de uma família que está ajudando a construir uma nova identidade para os queijos artesanais brasileiros.
Fazenda Coruja: um projeto familiar que começou pelos queijos de cabra
A produção de queijos da Fazenda Coruja teve início em 2018, quando Pedro Pedrosa e Bruna Sagretzki decidiram investir na caprinocultura leiteira como alternativa econômica para a propriedade.
A escolha não foi por acaso.
As cabras possuem características que favorecem sua criação em regiões semiáridas, desde que recebam manejo, alimentação e condições sanitárias adequadas.
A família decidiu trabalhar especialmente com a raça Murciano-Granadina, originária da Espanha, conhecida por sua aptidão leiteira e adaptação a regiões de clima seco.
Mas criar animais é apenas uma parte do trabalho. Transformar seu leite em queijos de qualidade exige domínio de processos, controle de fabricação, maturação e, principalmente, persistência.
Foi assim que nasceu o Queijo da Coruja.
Durante minha visita, conheci Bruna e Pedro, Givaldo, pai de Pedro, e Ivan, o queijeiro. Pessoas que, em diferentes atividades, ajudam a construir um projeto onde o conhecimento técnico convive com a experiência familiar.
Mais do que uma queijaria: uma propriedade que aprende com o território
Uma das características que mais me chamou a atenção na Fazenda Coruja foi a visão integrada da propriedade.
Ali, os queijos não são uma atividade isolada.

O trabalho envolve também sementes, genética animal e frutas, numa combinação de conhecimentos e atividades que procura aproveitar as possibilidades da terra.
Em um território como o Cariri, compreender as condições locais é fundamental para tomar decisões produtivas.
Não basta importar modelos de outras regiões e esperar os mesmos resultados. É preciso observar, experimentar, corrigir e, muitas vezes, começar novamente.
Prosperar no semiárido não significa vencer a natureza. Significa aprender a trabalhar com ela.
Essa talvez seja uma das maiores lições que uma propriedade como a Fazenda Coruja pode oferecer.
Os queijos da Fazenda Coruja e a identidade do Cariri
A queijaria produz diferentes variedades de queijos artesanais de leite de cabra, demonstrando como uma mesma matéria-prima pode oferecer experiências sensoriais bastante distintas.
Entre os produtos estão:
Lua Nova: queijo de cabra maturado, de massa prensada, que demonstra o potencial desse leite para elaborar queijos com maior tempo de maturação.
Coroa de Frade: um dos queijos premiados da propriedade, cujo nome homenageia elementos característicos da paisagem regional.
Creme Chèvre: Queijo de cabra fresco com textura cremosa.
Boursin: : Queijo de cabra tipo Boursin, macio e temperado.
O Lua Nova e o Coroa de Frade já receberam medalhas de ouro nem concursos nacionais, reconhecimento que ajudou a ampliar a visibilidade da produção paraibana.
Mais do que premiações, esses resultados demonstram a importância de investir em conhecimento técnico e desenvolver produtos com identidade própria.
Afinal, a qualidade de um queijo não depende apenas de sua receita. Ela é construída desde a criação dos animais e a qualidade do leite até as decisões tomadas durante a fabricação, conservação e maturação. A primeira queijaria da Paraíba a conquistar o Selo Arte Em 2024, a Queijaria Coruja alcançou um marco importante: tornou-se a primeira queijaria da Paraíba a conquistar o Selo Arte.
A certificação reconhece produtos de origem animal elaborados artesanalmente, mediante o cumprimento de critérios de produção e inspeção, e permite sua comercialização em todo o território nacional.
Para uma pequena queijaria localizada no interior do Cariri, isso representou a possibilidade de alcançar consumidores de outras regiões do Brasil.
A conquista foi resultado de um processo de aprimoramento técnico, gestão e adequação da produção, com apoio de instituições como o Senar e o Sebrae.
É um exemplo de como o conhecimento, a assistência técnica e políticas públicas adequadas podem ampliar as oportunidades de pequenos produtores.
O valor de conhecer quem está por trás do queijo
Durante a visita, uma das minhas maiores satisfações foi ouvir as histórias da família.
Conhecer suas decisões, entender os desafios enfrentados e perceber como cada integrante contribui para o desenvolvimento da propriedade.
Há algo que nenhuma embalagem consegue transmitir completamente: a história das pessoas que dedicam seus dias à produção de um alimento.
O conhecimento de Givaldo, a visão de Bruna e Pedro e o trabalho de Ivan na queijaria fazem parte de uma construção coletiva.

Um projeto que começou pequeno, avançou gradualmente e vem encontrando novos caminhos.
O valor de um queijo não está apenas em suas características sensoriais. Está também no conhecimento, no território e nas pessoas que tornam sua existência possível.
Isso não substitui a qualidade do produto. Pelo contrário: ajuda a compreender quantas decisões são necessárias para alcançá-la.
Por que precisamos conhecer mais os queijos artesanais da Paraíba? O Brasil possui uma diversidade queijeira muito maior do que aquela que costuma chegar às prateleiras dos grandes centros urbanos.
A Paraíba, especialmente a região do Cariri, vem conquistando espaço por meio de produtores que investem na qualidade do leite, na transformação artesanal e na valorização de suas particularidades.
Os queijos de cabra são parte importante dessa história.
Conhecer esses produtores permite ampliar nosso repertório sensorial, questionar preconceitos associados ao leite caprino e compreender diferentes expressões da produção artesanal brasileira.
Visitar a Fazenda Coruja reforçou minha convicção de que precisamos conhecer o Brasil diretamente, ouvindo quem vive e trabalha em cada território.
A vida no Cariri tem suas particularidades. E existe uma beleza extraordinária nessa diferença.
Saí da propriedade com histórias, aprendizados e uma admiração ainda maior pela inteligência e pela capacidade de adaptação do sertanejo.
Meu agradecimento a Bruna, Pedro, Givaldo e Ivan pela receptividade, pela prosa e pelos ensinamentos. Da Fazenda Coruja para a Confraria Aoqueijo
Na Aoqueijo, acreditamos que apresentar um queijo artesanal também é uma oportunidade de aproximar consumidores das pessoas e dos territórios onde ele nasce.
Por isso, incluir os queijos da Fazenda Coruja em uma edição da nossa Confraria tem um significado especial.
É permitir que uma pequena produção familiar do Cariri paraibano seja conhecida por consumidores de outras regiões.
E, principalmente, é mostrar que o Brasil possui histórias extraordinárias que merecem ser descobertas.
Porque levar um queijo para outra mesa é também uma maneira de fazer a história de quem o produz chegar mais longe.
Conheça a Confraria Aoqueijo e descubra novos produtores e queijos artesanais brasileiros.




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