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O papel do sal no queijo: como ele define textura, maturação e estabilidade

O sal no queijo vai muito além do sabor. Entenda como ele influencia textura, maturação, microbiologia e identidade do queijo artesanal.

Quando falamos de sal no queijo, quase todo mundo pensa apenas no sabor. Mas, na prática, o sal é um dos ingredientes mais decisivos de todo o processo de fabricação.

Muito além de temperar, o sal atua na estrutura da massa, no controle da água, na atividade microbiana e no ritmo da maturação. Ele não entra no final do processo ,ele atravessa tudo.


Entender a importância do sal no queijo é o que separa um produto instável de um queijo bem construído, com identidade, consistência e evolução correta ao longo do tempo.


O que o sal faz no queijo, na prática.

Quando o sal entra, seja na massa, a seco ou por salmoura, ele começa a:

  • reduzir a atividade de água (menos “água disponível” para reações e microrganismos),

  • influenciar a sinérese/dessoragem (quanto soro sai e quanto fica),

  • alterar interações entre proteínas (o que muda textura e funcionalidade),

  • modular atividade microbiana e enzimática (o “motor” da maturação).


Um artigo técnico brasileiro resume bem: o sal confere sabor, regula atividade de água e influencia processos microbiológicos e bioquímicos; e quando em excesso, pode retardar maturação e afetar textura.


Sal e textura: onde o queijo acusa primeiro

Se existe um lugar onde o sal entrega seu papel de “engenheiro”, é na textura.


Quando há sal de menos

O queijo tende a ficar com umidade alta demais e uma matriz proteica com menos “disciplina”. Isso aparece como:

  • massa mais mole e menos definida,

  • maior chance de exsudar soro,

  • instabilidade ao longo do armazenamento.


O motivo é simples de entender: com mais água disponível, o sistema fica mais “solto”, mais reativo e mais permissivo. A literatura descreve o impacto do sal na estrutura proteica e na funcionalidade do queijo exatamente por essa via de mudanças nas interações de proteínas e na organização da matriz.


Quando há sal de mais

Acontece o outro extremo:

  • desidratação mais intensa,

  • massa rígida ou quebradiça,

  • sensação de “travamento” na evolução do queijo.


E não é só sensação. Excesso de sal pode frear reações essenciais da maturação (como proteólise e lipólise), o que também aparece na literatura técnica como ponto crítico para qualidade final.


Sal e segurança: o controle do “mundo invisível”

O queijo é um ecossistema. Ele vive de microrganismos, mas precisa que os certos dominem.


A ciência descreve o sal como um agente de seleção: ele limita o crescimento de alguns grupos e favorece outros, tanto pela redução de atividade de água quanto por estresse osmótico.


Sal de menos: o ecossistema fica permissivo

Com menos barreiras, cresce o risco de microrganismos indesejáveis (deteriorantes e patógenos) terem espaço, principalmente em produtos mais úmidos e perecíveis, por isso a literatura enfatiza que o controle de “hurdles” (boas práticas e temperatura) é decisivo quando se mexe no equilíbrio do sal em certos tipos de queijo.


Sal de mais: você também aperta as culturas desejáveis

O problema é que, se o sal “aperta” demais, ele reduz a atividade metabólica das culturas que você queria que trabalhassem, e o queijo perde desenvolvimento de aroma e complexidade.


Estudos que observam microbiota e metabólitos em queijos (ex.: Cheddar) mostram que diferentes concentrações de sal alteram perfil físico-químico, textura e dinâmica microbiana/metabólica ao longo do tempo.


O sal como “metrônomo” da maturação

Maturação não é um evento; é um processo dirigido. E o sal participa como regulador de velocidade. Em queijos maturados, o sal influencia:

  • enzimas (que quebram proteínas e gorduras),

  • formação gradual de compostos de aroma,

  • ritmo com que textura evolui.


A literatura clássica sobre sal em queijo descreve esse efeito como central: o sal impacta o caminho físico, químico e microbiológico que leva ao produto final.


Um exemplo interessante vem do Emmental: comunicações do Agroscope destacam que o Emmental tem teor baixo a muito baixo de sal comparado a outros queijos, e discutem consequências em qualidade sensorial e o que pode ser feito no processo.


Técnica também é “onde” e “como” o sal entra

Não é só quantidade: método importa.


Uma revisão técnica brasileira descreve as principais formas (massa, leite, seca e salmoura) e aponta que salmoura é muito usada para características sensoriais e para reduzir atividade de água; cita salmouras na faixa de 20–24% de sal e temperatura 10–15 °C como controle para evitar crescimento de microrganismos indesejáveis.


Isso ajuda a entender algo prático para o produtor artesanal: o sal não “aparece” de uma vez. Ele difunde, distribui, cria gradientes, e esses gradientes mudam textura e crosta.


O consumidor vê no rótulo… mas o produtor vê no corte

Para fechar com um dado que coloca o tema no mundo real: um levantamento da Embrapa tabulou rótulos de 607 queijos no Brasil e descreveu a classificação do Ministério da Saúde para teor de sódio (ex.: “alto teor” acima de 400 mg de sódio/100 g) e observa que a maioria dos queijos analisados se enquadrou como alto teor.


Para o consumidor, isso vira número. Para o produtor, isso é processo: o sal está ali porque o queijo precisa dele para ser queijo.


Conclusão

No queijo, o sal não é figurante. Ele é estrutura, direção e estabilidade.

  • Sal de menos: a massa perde firmeza, o ecossistema fica permissivo e o queijo fica instável.

  • Sal de mais: a evolução trava, a textura endurece e o queijo perde expressão.


Quando bem ajustado, o sal quase não aparece e é justamente isso que torna seu papel tão poderoso: ele sustenta tudo sem fazer barulho. Fontes:

  • Agroscope / Swiss Agricultural Research – “The Salt Dilemma with Emmentaler Cheese”.

  • Embrapa – “Teor de sódio nos queijos brasileiros” (tabulação de 607 rótulos; classificação MS).

  • Guinee (2004) – “Salting and the role of salt in cheese” (visão geral clássica das funções do sal e faixa típica entre estilos).

  • Guinee (2004) – “Salt in Cheese: Physical, Chemical and Biological Aspects” (capítulo; efeitos físicos/químicos/biológicos).

  • Tidona et al. (2022) – “The Reduction of Salt in Different Cheese Categories…” (Frontiers; discussão por categoria e impacto em maturação/segurança).

  • Wang et al. (2024) – “The Effect of Salt Reduction on the Microbial Community… of Cheddar” (MDPI Foods; microbiota/metabólitos/texture vs sal).

  • Artigo técnico (2024) – “Arte da salga em queijos…” (formas de salga; parâmetros de salmoura; funções tecnológicas).

  • Pastorino et al. (2003) – efeito do sal em relações estrutura-função (mudanças em interações proteicas).

  • Dugat-Bony et al. (2019) – efeitos de diferentes níveis de sal sobre proteólise/atividade biológica em queijos (Food Research International).

 
 
 

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