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Capril do Bosque em Joanópolis: Heloísa Collins e a história dos queijos de cabra que ajudaram a abrir um mercado no Brasil

No meio da conversa, Heloísa Collins mostra uma fotografia antiga.

Poderia ser

apenas mais uma lembrança guardada pela família, mas há alguma coisa naquela imagem que faz toda a história do Capril do Bosque parecer ainda mais curiosa. A foto é de 1929. Nela está sua avó Angelina, grávida de sua mãe, numa chácara onde a família vivia em São Paulo. Um menino aparece à frente. E, ao redor deles, cabras.


Quase um século depois, Heloísa está em Joanópolis, na Serra da Mantiqueira paulista, cercada por cabras. Não porque tenha herdado uma antiga queijaria ou uma receita passada de geração em geração. Entre aquela fotografia e o Capril do Bosque existem décadas de distância, uma carreira acadêmica, muitas viagens, livros, experiências, mudanças de rumo e uma curiosidade que foi crescendo sem pedir licença.


Talvez por isso a fotografia seja tão boa para começar essa história. Ela não prova que tudo estava destinado a acontecer. Apenas mostra que, às vezes, algumas coisas da nossa trajetória parecem fazer sentido somente muito tempo depois.


Ver aquela antiga foto na parede é um exercício de se fazer sem pressa. Algo tão representativo merece uma busca atenta aos detalhes do ambiente simples, memórias de uma São Paulo que não reconhecemos mais. Mas a história que viria a seguir me deixaria ainda mais emocionado.


Heloísa construiu boa parte da vida profissional longe da produção rural. Foi pesquisadora, professora universitária e viajou bastante durante a carreira acadêmica. Nessas viagens, principalmente pela Europa, provou muitos queijos de cabra e conheceu uma diversidade que ainda era difícil encontrar no Brasil. O interesse começou pelo sabor, passou pela curiosidade técnica e foi se tornando cada vez mais sério.


Quando pergunto por que cabras, a resposta não vem acompanhada de uma grande teoria. Ela gosta de queijo de cabra, lembra que os bisavós já criavam esses animais, brinca que é capricorniana e acrescenta uma razão extremamente prática: a propriedade era pequena demais para pensar em um rebanho bovino maior.


É uma resposta muito parecida com a maneira como o Capril do Bosque parece ter sido construído. Há curiosidade, mas também pragmatismo.


Uma mudança que levou anos para acontecer

A relação da família com Joanópolis começou aproximadamente cinquenta anos atrás. Heloísa, a mãe e o irmão compraram juntos uma propriedade de cerca de seis alqueires. Era um sítio para escapar da cidade nos fins de semana. Mais tarde, decidiram dividir a área para que cada um pudesse conduzir seu pedaço com maior liberdade.


Foi nesse espaço que o interesse pelos queijos começou a ganhar forma.



Primeiro como experiência. Depois como um hobby levado cada vez mais a sério. Heloísa buscava informação onde conseguia, experimentava fermentos, culturas, mofos, formas de trabalhar a massa e diferentes períodos de maturação. O conhecimento científico que já fazia parte de sua vida profissional encontrou outro objeto para investigar.


Não houve, entretanto, um dia específico em que ela fechou a porta da universidade e decidiu virar produtora rural.


A mudança aconteceu quase ao contrário.


Ela vinha para Joanópolis aos fins de semana. Depois passou a permanecer três dias. Mais tarde, quatro. O tempo no sítio aumentava enquanto a vida em São Paulo diminuía. Até que, em 2010, desocupou definitivamente o apartamento e passou a viver na propriedade.


Quando conta isso, Heloísa descreve a mudança como aquilo que ela realmente foi: gradativa.


Essa informação parece pequena, mas talvez seja uma das partes mais humanas de toda a trajetória. Histórias de empreendedorismo costumam ser contadas como rupturas — alguém abandona uma vida, corre um risco e começa outra. A realidade frequentemente é menos cinematográfica e, justamente por isso, mais verdadeira. Uma vida vai entrando lentamente dentro da outra até ocupar espaço suficiente para não ser mais possível tratá-la como um projeto paralelo.


Aqui a história dela toca a de muitos grandes queijeiros do cenário atual. Nem sempre houve um tempo distinto para cada atividade. Muitas vezes a vida teceu um emaranhado de deveres que foram tomando forma à medida que o tempo avançava. Pendendo sempre para a nova atividade com os queijos.


Joanópolis não virou exatamente um lugar para descansar

A paisagem ajuda a entender por que alguém gostaria de permanecer ali. Joanópolis está entre montanhas da Mantiqueira, numa região de Mata Atlântica, cursos d'água e relevo marcado. O chamado Gigante Adormecido desenha parte do horizonte e acabou emprestando o nome a um dos queijos do Capril.


Visto de fora, parece o cenário perfeito para uma narrativa sobre abandonar a cidade e encontrar tranquilidade no campo.


Heloísa desmonta essa ideia rapidamente.


A vida pode ser mais tranquila em determinados aspectos, admite, mas o trabalho é intenso. O leite não para porque é domingo. Os animais precisam ser alimentados e acompanhados todos os dias. Há fabricação, maturação, comercialização, inspeção, funcionários, veterinários, logística, visitantes e uma estrutura que, conforme cresce, ganha novos problemas para resolver.


Enquanto conversávamos, uma televisão que não estava funcionando direito virou assunto. Heloísa queria descobrir quem poderia arrumá-la. Se tivesse conserto, ótimo. Se não tivesse, sairia dali. Ela comentou, rindo, que estava numa fase de colocar para funcionar tudo aquilo que não funcionava.


Parece uma pequena interrupção sem importância numa entrevista sobre queijo.

Não é.


Pouco depois, ela diz uma frase que ajuda a entender sua forma de administrar o negócio: “Problema existe para a gente resolver. Ele não pode existir mais do que o tempo dele no seu colo.”


A televisão, as portas que precisavam de manutenção, a logística dos queijos, o crescimento da produção: tudo parece obedecer à mesma lógica. Identificar o problema, entender por que ele continua existindo e fazer alguma coisa até que deixe de ser um problema.


Foi talvez quando a conversa saiu do queijo e entrou numa televisão quebrada que eu comecei a entender melhor Heloísa. Para ela, coisa que não funciona incomoda.


Artesanal não significa falta de controle

Esse pensamento fica ainda mais evidente quando a conversa chega à qualidade.


Existe uma ideia recorrente em parte do universo artesanal de que um produto precisa variar bastante para provar que é autêntico. Como se controlar demais o processo retirasse alguma coisa de sua identidade.


Heloísa não compra essa interpretação.


Para ela, conhecer o leite, acompanhar parâmetros, registrar informações e entender cada etapa não torna um queijo menos artesanal. Torna o produtor capaz de tomar decisões melhores.


É importante separar duas coisas que frequentemente são confundidas: padronização absoluta e estabilidade.


E nesse quesito todos nós devemos refletir. Não são a mesma coisa. Padronizar é tentar reduzir a variação para repetir um resultado. Estabilizar é controlar a variação para que ela permaneça dentro de limites desejáveis.


Leite é uma matéria-prima viva. A alimentação do animal muda, o estágio de lactação interfere, as estações alteram condições de manejo e a própria composição pode variar. Fingir que essas diferenças não existem não torna o produto mais autêntico.


Apenas deixa o produtor com menos informação.


No Capril do Bosque, o leite utilizado vem do próprio rebanho. No momento da entrevista, a propriedade estava produzindo mais de 200 litros por dia e caminhava para aproximadamente 250. Havia cerca de dez pessoas envolvidas nas diferentes áreas do negócio, além da equipe necessária para receber visitantes nos fins de semana.


Essa estrutura exige controle.


Heloísa fala com orgulho da estabilidade alcançada nos queijos. Não quer dizer que todos sejam absolutamente iguais ou que o leite deixe de expressar suas diferenças naturais. Significa que o cliente consegue comprar um queijo, gostar dele, voltar semanas depois e reconhecer aquilo que o fez retornar.


Ela resume essa lógica de maneira bastante simples: comprar uma vez é fácil. O cliente que volta é quem sustenta uma empresa durante anos.


Uma diversidade incomum para uma pequena queijaria

Outro ponto que Heloísa associa à fidelidade do consumidor é a variedade.


O Capril do Bosque desenvolveu ao longo dos anos um portfólio incomum de queijos caprinos, atravessando tecnologias bastante diferentes entre si. Há frescos, maturados, cascas floridas, queijos azuis, massas mais delicadas e outras bastante intensas.


Esse repertório nasceu da curiosidade.


O Lua do Bosque foi um dos queijos que marcaram o início dessa busca por produtos caprinos mais sofisticados: massa mole, textura cremosa e casca de mofo branco. A Pirâmide do Bosque seguiu outra direção, trabalhando fermentação lática, carvão vegetal e casca florida, numa inspiração que remete à tradição francesa do Valençay.


O Azul do Bosque abriu outro caminho. Desenvolvido a partir de referências dos queijos azuis ingleses, tornou-se uma das experiências brasileiras pioneiras de queijo azul produzido com leite de cabra.


Hoje encontrar queijo de cabra em restaurantes, empórios especializados e concursos brasileiros já não causa o estranhamento de algumas décadas atrás. É fácil esquecer como esse mercado era pequeno quando Heloísa começou a experimentar.

Ela não esqueceu.


E talvez por isso sua resposta sobre mercado seja uma das frases mais interessantes da conversa:

“Eu acho que a gente acaba fazendo o nosso mercado.”


Não é esperar descobrir onde existe demanda. É produzir, apresentar, explicar, fazer as pessoas provarem e criar condições para que aquela demanda apareça.


Fazer queijo era apenas metade do trabalho

Produzir um bom queijo de cabra não resolvia todos os problemas.


Era preciso convencer alguém a prová-lo.

Depois era necessário encontrar estabelecimentos dispostos a vendê-lo.


E, quando finalmente aparecia um cliente distante, surgia outra pergunta: como fazer um queijo fresco ou delicado atravessar centenas de quilômetros mantendo as mesmas condições em que saiu da propriedade?


A logística tornou-se uma parte importante da construção do Capril. Ao longo dos anos, foram testadas transportadoras, veículos refrigerados, rotas e até soluções envolvendo transporte aéreo. Heloísa fala sobre isso como fala dos demais obstáculos: alguma coisa impede o produto de chegar corretamente ao cliente, então é preciso descobrir uma alternativa.


Essa atitude ajuda a explicar por que ela prefere dizer que constrói o próprio mercado.

Não há muito espaço para uma postura passiva. E ainda hoje este é sem dúvidas um dos pontos mais sensíveis na cadeia do queijo no país. Distâncias continentais, baixa infraestrutura e um custo operacional alto.


A propriedade também virou lugar de encontro

A abertura para visitantes foi sendo construída junto com a queijaria. O atendimento começou ainda no início da década passada, antes de o turismo ligado às pequenas queijarias ter a visibilidade que possui hoje.


Atualmente, visitar o Capril significa encontrar algo que uma prateleira dificilmente consegue mostrar: a amplitude do universo dos queijos de cabra.


Na conversa, Heloísa mencionou degustações que podem reunir perto de vinte produtos. Isso muda completamente a experiência de alguém que chega carregando a velha ideia de que “queijo de cabra” é um único sabor.


De repente há cremosidade, mofo branco, azul, casca, frescor, maturação e intensidades muito diferentes.


A propriedade continua pensando em novas formas de receber. Quando estive lá, Heloísa preparava inclusive uma experiência de piquenique.

Não é apenas entretenimento.


Abrir a propriedade diminui a distância entre quem faz e quem come. O visitante vê os animais, entende a escala, percebe a quantidade de trabalho e depois coloca o queijo na boca com outras informações.


A pequena Joanópolis respira tranquilidade, e é possivel notar isso no ritmo da vida na cidade. Ao chegar no capril essa sensação é acentuada com a vista das montanhas, o silêncio e o clima ameno. Muito antes das medalhas, existia curiosidade

Com o tempo vieram reconhecimento e premiações. Queijos como Dolce Bosco e Gigante do Bosque alcançaram posições de destaque em concursos brasileiros e internacionais, ajudando a colocar o nome do Capril diante de um público muito maior.


As medalhas importam.


Mas ouvindo Heloísa, tenho a impressão de que elas explicam menos sua trajetória do que a curiosidade que existia antes delas.


A pesquisadora que procurava queijos durante viagens e queria compreender fermentos, mofos e maturação ainda parece estar ali. Talvez seja por isso que, depois de tantos anos, a conversa continue voltando ao que pode melhorar, àquilo que ainda não funciona como deveria e ao próximo problema que precisa ser resolvido.


Ela própria reconhece o lado desgastante dessa postura.

“Não relaxa nunca.” É uma frase curta, quase jogada no meio da conversa, mas bastante reveladora. E então voltamos àquela fotografia

No fim, é difícil não voltar a 1929.


Angelina está parada diante da câmera, grávida da mãe de Heloísa. As cabras aparecem na mesma imagem. Não havia Capril do Bosque, queijo premiado, Selo Arte, restaurante, câmaras de maturação ou um mercado brasileiro interessado em descobrir dezenas de expressões diferentes do leite caprino.


Seria tentador dizer que aquela fotografia antecipava tudo.

Talvez seja mais bonito não dizer.


Porque aquilo que aconteceu depois exigiu muito mais do que ancestralidade. Exigiu estudo, tentativa, dinheiro, trabalho, capacidade de mudar de estratégia, insistência e décadas de construção.


O Capril do Bosque não nasceu pronto e nem encontrou um mercado pronto esperando por ele. Os dois foram sendo construídos ao mesmo tempo.


Talvez essa seja a parte mais importante da história de Heloísa Collins. Ela ajudou a mostrar que o artesanal pode ser técnico sem perder identidade; que controle não precisa eliminar personalidade; que uma pequena produção pode trabalhar com uma enorme diversidade de tecnologias; e que, quando um mercado ainda é pequeno, alguém precisa começar a apresentá-lo às pessoas.


Tenho cada vez mais a impressão de que um queijo nunca se separa completamente de quem o produz. Ele carrega o olhar, a disciplina, a curiosidade e até a maneira como aquela pessoa se relaciona com o mundo. Talvez por isso produtores atentos, generosos e dispostos a aprender consigam, com frequência, construir queijos que também revelam essas qualidades.


Quase cem anos depois daquela fotografia, há novamente cabras em volta de uma mulher daquela família.


Mas agora há também queijos.

Muitos deles.


E um mercado que, em alguma medida, precisou ser criado para que eles pudessem existir.


Conhecer o queijo também é conhecer quem abriu caminho

Há produtos que chegam à mesa quando toda a estrada já está construída. Outros carregam a história das pessoas que tiveram de construir parte dela enquanto trabalhavam.


É esse lado do queijo artesanal que buscamos mostrar na Confraria aoqueijo. Não apenas enviar uma peça, mas aproximar quem prova das pessoas, dos lugares e das decisões que existem por trás dela.


Porque um queijo muda quando conhecemos sua história.

Não necessariamente no sabor.

Mas na forma como passamos a percebê-lo.


Conheça a Confraria aoqueijo em aoqueijo.com.br/confrariaaoqueijo.


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